Israel e Palestina: história e geopolítica do conflito

 


O conflito entre israelenses e palestinos é um dos mais longos, complexos e internacionalizados da história contemporânea. Suas raízes estão ligadas à disputa por território, ao nacionalismo, à formação de Estados, aos deslocamentos populacionais, à religião e às diferentes interpretações sobre direitos históricos e políticos. Ao longo de mais de um século, guerras, ocupações, atentados, negociações de paz, movimentos nacionalistas e intervenções internacionais transformaram a região em um dos principais focos de tensão do Oriente Médio.

Apesar de frequentemente ser apresentado como um conflito exclusivamente religioso entre judeus e muçulmanos, essa explicação é insuficiente. A disputa também envolve projetos nacionais, controle territorial, segurança, soberania, autodeterminação e o destino de milhões de pessoas. Judeus e palestinos árabes desenvolveram identidades nacionais distintas na mesma região, e ambos reivindicam direitos históricos e políticos relacionados à terra.



As origens no final do século XIX

A história moderna do conflito ganhou força no final do século XIX, período marcado pelo crescimento de movimentos nacionalistas na Europa e no Oriente Médio.

Entre os judeus europeus, o sionismo surgiu como um movimento político que defendia a criação de um lar nacional judaico na Palestina, território que naquele momento fazia parte do Império Otomano. O movimento foi influenciado pelo antissemitismo europeu, por perseguições contra comunidades judaicas e pela ideia de que os judeus precisavam de um espaço político próprio.

Ao mesmo tempo, desenvolvia-se entre as populações árabes da região uma consciência política que posteriormente contribuiria para o nacionalismo palestino. A população árabe da Palestina era majoritária e possuía suas próprias comunidades, cidades, atividades econômicas e estruturas sociais.

A região, portanto, não era um território vazio à espera de um novo Estado. Era habitada por uma população árabe, majoritariamente muçulmana, com comunidades cristãs, além de uma presença judaica histórica que também existia antes da imigração sionista em larga escala.

Durante as primeiras décadas do século XX, a imigração judaica para a Palestina aumentou, especialmente em consequência da perseguição na Europa. A compra de terras, a criação de comunidades judaicas e o crescimento populacional intensificaram as tensões com parte da população árabe local.

A Declaração Balfour e o Mandato Britânico

A Primeira Guerra Mundial alterou profundamente o mapa político do Oriente Médio. O Império Otomano foi derrotado e seus antigos territórios foram reorganizados pelas potências vencedoras.

Em 1917, o governo britânico publicou a Declaração Balfour, manifestando apoio ao estabelecimento na Palestina de um "lar nacional para o povo judeu", ao mesmo tempo em que afirmava que os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes deveriam ser preservados.

Depois da guerra, a Liga das Nações concedeu à Grã-Bretanha o Mandato sobre a Palestina. Durante o período do Mandato Britânico, a imigração judaica continuou e as instituições políticas e sociais do movimento sionista se fortaleceram.

A população árabe palestina, por sua vez, passou a contestar cada vez mais a imigração e as políticas britânicas relacionadas à região. Revoltas e confrontos ocorreram em diferentes momentos. A violência entre comunidades aumentou, enquanto o governo britânico enfrentava dificuldades para conciliar projetos políticos que se tornavam progressivamente incompatíveis.

O plano de partilha de 1947

Depois da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, o apoio internacional à criação de um Estado judeu aumentou significativamente. A situação dos sobreviventes judeus e das comunidades deslocadas pela guerra tornou a questão ainda mais urgente.

Em 1947, a Organização das Nações Unidas propôs um plano de partilha da Palestina. A proposta previa a criação de dois Estados, um judeu e outro árabe, enquanto Jerusalém teria um regime internacional especial. A liderança judaica aceitou o plano como base para a criação de um Estado, embora houvesse ressalvas. A liderança árabe palestina e os Estados árabes rejeitaram a proposta, considerando a divisão injusta.

A partilha não foi implementada conforme o desenho original. Em 14 de maio de 1948, Israel declarou sua independência. Uma guerra envolvendo Israel e países árabes vizinhos começou imediatamente depois.

O conflito produziu mudanças territoriais significativas. Os armistícios de 1949 estabeleceram linhas de cessar-fogo posteriormente conhecidas como Linha Verde. Israel passou a controlar uma área maior do que aquela prevista no plano de partilha da ONU.

Para os israelenses, a guerra de 1948 é frequentemente associada à criação e à sobrevivência do novo Estado em meio a uma guerra regional. Para os palestinos, o mesmo período é conhecido como Nakba, termo árabe que significa "catástrofe", em referência ao deslocamento em massa de sua população. Segundo a ONU, mais de metade da população árabe palestina fugiu ou foi expulsa durante a guerra.

A questão dos refugiados palestinos tornou-se, desde então, um dos pontos centrais das negociações de paz.

1967: a guerra que mudou novamente o mapa

Outro momento decisivo ocorreu em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias. Israel entrou em guerra com Egito, Jordânia e Síria e, ao final do conflito, passou a controlar a Cisjordânia, Jerusalém Oriental, a Faixa de Gaza, as Colinas de Golã e a Península do Sinai.

A ocupação da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e de Gaza transformou a natureza do conflito. A partir daquele momento, a questão territorial passou a estar diretamente relacionada à ocupação militar e à possibilidade de criação de um Estado palestino.

A Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em novembro de 1967, estabeleceu princípios para uma solução política e enfatizou a inadmissibilidade da aquisição de território pela guerra, além de tratar da retirada das forças israelenses dos territórios ocupados no conflito e da necessidade de uma solução para o problema dos refugiados.

A situação territorial posterior a 1967 continua sendo um dos principais pontos de disputa. Israel retirou suas forças e assentamentos da Faixa de Gaza em 2005, enquanto manteve diferentes formas de controle sobre aspectos de suas fronteiras, espaço aéreo e marítimo. Na Cisjordânia, Israel continuou mantendo presença militar e expandindo assentamentos israelenses em diferentes períodos.

Os assentamentos e a questão territorial

Os assentamentos israelenses na Cisjordânia estão entre os temas mais controversos do conflito.

A posição predominante nas instituições internacionais é que os territórios ocupados desde 1967 possuem status jurídico distinto do território soberano de Israel. Em parecer consultivo de 2024, a Corte Internacional de Justiça concluiu que a presença continuada de Israel no Território Palestino Ocupado era ilegal segundo o direito internacional e afirmou que as políticas e práticas analisadas violavam, entre outros princípios, o direito do povo palestino à autodeterminação.

O governo israelense e diferentes grupos políticos israelenses contestam interpretações e enquadramentos internacionais sobre o conflito, destacando questões de segurança, reivindicações históricas e a necessidade de impedir ataques contra a população israelense.

Essa divergência jurídica e política é fundamental para compreender por que questões aparentemente territoriais se transformaram em obstáculos tão difíceis para qualquer acordo definitivo.

A Organização para a Libertação da Palestina e a ascensão do Hamas

A Organização para a Libertação da Palestina, conhecida como OLP, tornou-se uma das principais representantes políticas dos palestinos. Durante décadas, a organização esteve associada à luta pela criação de um Estado palestino.

Na década de 1980, surgiu o Hamas, movimento palestino de orientação islamista que combinou atividade política, assistência social e luta armada contra Israel. O grupo ganhou importância especialmente depois da Primeira Intifada, iniciada em 1987.

A Primeira Intifada foi uma revolta palestina contra a ocupação israelense na Cisjordânia e em Gaza. O período aumentou a pressão internacional por uma solução política e contribuiu para mudanças na estratégia da liderança palestina.

Em 1993, Israel e a OLP reconheceram-se mutuamente e assinaram os Acordos de Oslo. A OLP reconheceu o direito de Israel de existir em paz e segurança, enquanto Israel reconheceu a OLP como representante do povo palestino. O processo estabeleceu uma estrutura de autogoverno palestino limitado e pretendia abrir caminho para negociações sobre questões definitivas.

Em 1995, o chamado Oslo II dividiu a Cisjordânia em três áreas administrativas, denominadas A, B e C. A Área C corresponde a mais de 60% da Cisjordânia e permaneceu sob administração israelense exclusiva em termos definidos pelo acordo.

Por que Oslo não resolveu o conflito?

Os Acordos de Oslo foram concebidos como uma etapa intermediária, não como um acordo definitivo. Questões fundamentais ficaram para negociações posteriores.

Entre elas estavam o status de Jerusalém, as fronteiras definitivas, os assentamentos israelenses, a segurança, o futuro dos refugiados palestinos e o reconhecimento de um Estado palestino.

O processo sofreu sucessivos golpes. Ataques contra civis israelenses, operações militares, expansão de assentamentos, disputas políticas internas e a desconfiança crescente entre as partes enfraqueceram a perspectiva de um acordo definitivo.

Em 1995, o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista israelense contrário ao processo de paz. Nos anos seguintes, novas ondas de violência dificultaram ainda mais as negociações.

No início dos anos 2000, a Segunda Intifada produziu níveis elevados de violência. Israel intensificou operações militares na Cisjordânia e começou a construir uma barreira de separação em partes da região. O conflito entrou em uma nova fase de desconfiança e fragmentação política.

Gaza, Hamas e o bloqueio

A Faixa de Gaza tornou-se outro centro fundamental da disputa.

Em 2005, Israel retirou suas tropas e assentamentos da Faixa de Gaza. Dois anos depois, o Hamas assumiu o controle interno do território após confrontos com o Fatah, principal facção da Autoridade Palestina e ligada à OLP.

A divisão política palestina passou a ser um dos principais obstáculos para a construção de uma representação unificada. A Autoridade Palestina continuou administrando partes da Cisjordânia, enquanto o Hamas controlava Gaza.

Israel e Egito impuseram restrições severas à circulação de pessoas e mercadorias para dentro e para fora de Gaza, com diferentes justificativas relacionadas à segurança. O bloqueio e as repetidas guerras e confrontos provocaram graves consequências humanitárias e econômicas para a população local.

Ao longo dos anos, Gaza foi palco de diversas guerras e operações militares entre Israel e grupos armados palestinos. Lançamentos de foguetes contra Israel e ataques israelenses contra Gaza tornaram-se recorrentes.

O ataque de 7 de outubro de 2023

Em 7 de outubro de 2023, combatentes liderados pelo Hamas realizaram um ataque de grande escala contra Israel, matando cerca de 1.200 pessoas, segundo autoridades israelenses, e sequestrando aproximadamente 250 pessoas, que foram levadas para Gaza.

Israel respondeu com uma ampla campanha militar na Faixa de Gaza, declarando como objetivos a destruição das capacidades militares e governamentais do Hamas e o retorno dos reféns.

A guerra provocou uma enorme crise humanitária e destruição em Gaza, além de deslocamentos em massa da população. Organizações internacionais passaram a alertar repetidamente sobre mortes de civis, falta de alimentos, água, medicamentos, abrigo e infraestrutura básica.

A ofensiva também aumentou as tensões regionais, envolvendo direta ou indiretamente grupos e governos de outros países do Oriente Médio.

O conflito iniciado em outubro de 2023 não eliminou as questões históricas que estavam na origem da disputa. Ao contrário, recolocou no centro do debate internacional temas como segurança de Israel, proteção de civis, reféns, futuro de Gaza, reconstrução, governança palestina, ocupação, assentamentos e criação de um Estado palestino.

Jerusalém: uma cidade no centro da disputa

Jerusalém possui importância política, histórica e religiosa excepcional.

Para judeus, a cidade abriga locais centrais para a tradição judaica, incluindo o Muro Ocidental. Para muçulmanos, o complexo conhecido como Al-Aqsa, que inclui a Mesquita de Al-Aqsa e o Domo da Rocha, é um dos lugares mais sagrados do Islã. Para cristãos, Jerusalém possui enorme importância por estar associada a acontecimentos centrais da vida de Jesus.

A cidade também possui importância nacional para israelenses e palestinos. Israel considera Jerusalém sua capital, enquanto os palestinos reivindicam Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado palestino.

O status internacional de Jerusalém permanece um dos assuntos mais delicados das negociações. Depois de 1967, Israel ampliou sua administração sobre Jerusalém Oriental, medida que não é reconhecida como válida pela maior parte da comunidade internacional.

A dimensão geopolítica

O conflito não envolve apenas israelenses e palestinos. Estados Unidos, países europeus, países árabes, Irã, Turquia, Rússia e outras potências possuem interesses políticos, militares ou econômicos relacionados à região.

Os Estados Unidos são historicamente um dos principais parceiros estratégicos de Israel e desempenham papel importante em negociações diplomáticas. Países árabes, por sua vez, passaram por mudanças significativas em suas relações com Israel.

Egito e Jordânia estabeleceram tratados de paz com Israel. Outros países árabes também normalizaram relações diplomáticas com Israel nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a questão palestina continua sendo um elemento importante na política regional.

O Irã mantém uma posição de forte oposição a Israel e apoia grupos armados e organizações políticas que enfrentam Israel, embora a natureza e o grau dessa relação variem conforme o grupo e o período.

Assim, o conflito israelense-palestino funciona também como um ponto de encontro entre disputas regionais mais amplas, rivalidades estratégicas e interesses das grandes potências.

A solução de dois Estados

Uma das propostas diplomáticas mais conhecidas é a criação de dois Estados independentes, Israel e Palestina, vivendo lado a lado.

A ideia aparece em diferentes iniciativas diplomáticas e continua sendo defendida por diversos governos e organizações internacionais. Em 2024, o Conselho de Segurança da ONU reiterou seu compromisso com uma solução de dois Estados, com Israel e Palestina vivendo lado a lado em paz e dentro de fronteiras seguras e reconhecidas.

Na prática, porém, diversos obstáculos dificultam sua implementação.

A expansão dos assentamentos na Cisjordânia, a fragmentação territorial palestina, o status de Jerusalém, as questões de segurança, o destino dos refugiados, a governança de Gaza e a divisão política entre facções palestinas são alguns dos principais problemas.

Também existe uma questão fundamental de confiança. Décadas de guerras, atentados, ocupação, deslocamentos e fracassos diplomáticos produziram sociedades nas quais diferentes grupos carregam memórias históricas profundamente traumáticas.

Um conflito sem solução simples

A história de Israel e Palestina não pode ser reduzida a uma única data ou a uma única causa. O conflito foi construído por camadas sucessivas de acontecimentos: o nacionalismo judaico e árabe, o fim do Império Otomano, o Mandato Britânico, a perseguição aos judeus na Europa, o Holocausto, a criação de Israel, a Nakba palestina, as guerras árabe-israelenses, a ocupação iniciada em 1967, os assentamentos, as Intifadas, os Acordos de Oslo, a divisão política palestina e os conflitos em Gaza.

Também não existe uma única narrativa compartilhada por todas as comunidades envolvidas. A memória de 1948, por exemplo, possui significados muito diferentes para israelenses e palestinos. O mesmo ocorre com 1967, os assentamentos, os ataques contra civis, as operações militares e o status de Jerusalém.

No plano internacional, diferentes governos e instituições também divergem sobre responsabilidades, prioridades e caminhos para uma solução. No plano jurídico, decisões e pareceres internacionais estabeleceram interpretações importantes sobre ocupação, autodeterminação e território, mas a existência dessas interpretações não significa que sua implementação política seja automática.

Em última análise, a disputa envolve duas populações que desenvolveram projetos nacionais sobre um mesmo espaço geográfico e que possuem reivindicações, experiências históricas e percepções de segurança distintas. Compreender o conflito exige reconhecer essa complexidade sem apagar os fatos históricos, os direitos reivindicados pelas partes ou as consequências humanas das decisões políticas e militares.

O desafio diplomático permanece justamente em transformar princípios abstratos, como segurança, autodeterminação, soberania e direitos humanos, em uma estrutura política capaz de funcionar na realidade. Enquanto questões territoriais, de segurança, representação política e direitos permanecerem sem acordo, Israel e Palestina continuarão no centro de uma das disputas geopolíticas mais importantes do mundo contemporâneo.

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