A presença da China na África deixou de ser explicada apenas por grandes obras de infraestrutura. Ao longo das últimas décadas, Pequim construiu uma rede de relações que combina comércio, investimentos, financiamento, mineração, tecnologia, diplomacia, formação profissional e cooperação política. O resultado é uma presença diversificada, que se adapta às necessidades de diferentes países africanos e acompanha a transformação econômica do continente.
Em 2024, o comércio entre China e África chegou a US$ 295,5 bilhões, segundo dados divulgados pelo Ministério das Relações Exteriores chinês, com crescimento anual de 6,1%. No mesmo período, Pequim reforçou compromissos comerciais e diplomáticos durante a Cúpula do Fórum de Cooperação China-África, realizada em Pequim.
A dimensão desses números ajuda a explicar por que a relação deixou de ser uma questão restrita à política externa. Para governos africanos, a China representa uma fonte de capital, infraestrutura, tecnologia e acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo. Para Pequim, o continente oferece oportunidades comerciais, acesso a recursos naturais, novos mercados e espaço para ampliar sua atuação diplomática em instituições multilaterais.
A influência chinesa, porém, não ocorre de maneira uniforme. Cada país possui interesses próprios, níveis diferentes de dependência econômica e estratégias distintas para negociar com investidores estrangeiros. Em muitos casos, governos africanos procuram justamente diversificar seus parceiros, mantendo relações simultâneas com China, Estados Unidos, União Europeia, países do Golfo, Índia, Rússia e outras potências.
Infraestrutura como porta de entrada
Durante anos, estradas, ferrovias, portos, aeroportos, usinas de energia e prédios públicos foram alguns dos principais símbolos da presença chinesa no continente.
Empresas chinesas participaram da construção de importantes projetos de infraestrutura em diferentes regiões da África. Um exemplo é o porto de águas profundas de Kribi, em Camarões, construído pela China Harbour Engineering Company. O projeto foi acompanhado pela construção de infraestrutura rodoviária destinada a conectar o porto a outras áreas do país.
No Egito, empresas chinesas também estão envolvidas na construção da Nova Capital Administrativa, projeto de grande escala localizado nos arredores do Cairo. Em 2025, o Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos registrou ainda investimentos chineses em setores como veículos elétricos, logística, energia verde e manufatura no país.
No Quênia, Pequim e Nairóbi discutiram a retomada e expansão de projetos de conectividade, incluindo ferrovias e rodovias. Um dos modelos analisados combina recursos do governo queniano, financiamento privado e empréstimos chineses.
A infraestrutura tem uma característica importante: seus efeitos ultrapassam a obra individual. Uma estrada pode reduzir custos de transporte, uma ferrovia pode conectar áreas produtoras a portos e um porto pode facilitar a entrada e saída de mercadorias. Dessa maneira, investimentos físicos podem criar condições para o aumento do comércio e, ao mesmo tempo, aproximar empresas chinesas dos mercados locais.
Do petróleo e minério às cadeias industriais
Outro componente central da relação é o acesso a recursos naturais.
A África possui grandes reservas de petróleo, gás, cobre, cobalto, lítio, manganês, ferro e outros minerais importantes para a indústria. Com a expansão mundial dos veículos elétricos, das baterias e das tecnologias de energia renovável, minerais críticos passaram a ganhar importância estratégica.
A República Democrática do Congo é um dos casos mais significativos. O país possui enormes reservas de cobre e cobalto, enquanto empresas chinesas ocupam uma posição importante na mineração e no processamento desses recursos. Segundo análise do Council on Foreign Relations, empresas estatais chinesas e bancos ligados ao Estado desempenham papel relevante no setor de cobalto congolês.
A relação, contudo, também mostra que a influência econômica chinesa não elimina disputas. Na República Democrática do Congo, organizações da sociedade civil questionaram aspectos de acordos envolvendo mineração e infraestrutura e defenderam novas revisões dos contratos. Essas críticas indicam que governos e grupos locais podem renegociar os termos da presença chinesa quando consideram que os resultados econômicos não correspondem às expectativas.
Esse ponto é importante porque a relação China-África não pode ser entendida simplesmente como uma troca entre matérias-primas africanas e obras chinesas. O modelo vem incorporando manufatura, processamento industrial e integração a cadeias globais de produção.
No Egito, por exemplo, empresas chinesas passaram a atuar também na produção de veículos elétricos, componentes industriais e materiais relacionados à economia verde. No Marrocos, investimentos chineses anunciados em 2025 incluíram uma grande instalação relacionada à cadeia de baterias de íons de lítio.
Comércio como instrumento de aproximação
A estratégia chinesa também passa pelo comércio.
Na Cúpula de 2024 do Fórum de Cooperação China-África, Pequim anunciou medidas para ampliar o acesso de produtos africanos ao mercado chinês. Uma das decisões foi conceder tratamento de tarifa zero para 100% das linhas tarifárias provenientes dos países africanos menos desenvolvidos que mantêm relações diplomáticas com a China.
Em 2025, Pequim anunciou a intenção de ampliar a política de tarifa zero para os países africanos com os quais mantém relações diplomáticas, com exceção de Eswatini, que mantém relações diplomáticas com Taiwan. A medida foi apresentada como parte de uma estratégia para expandir o comércio entre as duas regiões.
A lógica é relativamente simples: quanto maior o fluxo de mercadorias, maior tende a ser a interdependência econômica.
Para países africanos, o acesso ao mercado chinês pode representar uma oportunidade para aumentar exportações agrícolas, minerais e industriais. Para empresas chinesas, a África oferece mercados consumidores em expansão e possibilidades de instalação de fábricas próximas aos consumidores e às matérias-primas.
O desafio está em transformar o crescimento do comércio em industrialização sustentável. O Banco Mundial destacou em 2026 que a integração econômica africana depende cada vez mais da criação de cadeias produtivas regionais, da redução dos custos de transporte e da melhoria de sistemas de comércio, energia, pagamentos e infraestrutura digital.
A diplomacia como parte da estratégia
A influência chinesa também é construída por meio da diplomacia de alto nível.
O Fórum de Cooperação China-África, conhecido pela sigla FOCAC, tornou-se uma das principais plataformas institucionais desse relacionamento. Na reunião de Pequim de 2024, participaram líderes e representantes de 53 países africanos, além da União Africana. O plano de ação aprovado para 2025 a 2027 incluiu comércio, infraestrutura, agricultura, educação, saúde, tecnologia, formação profissional e cooperação política.
Essa estrutura permite que Pequim trate a relação com a África não apenas de forma bilateral, país por país, mas também em uma dimensão continental.
A diplomacia chinesa também procura ampliar a cooperação em fóruns internacionais. A retórica oficial enfatiza a chamada cooperação Sul-Sul e a defesa de uma ordem internacional na qual países em desenvolvimento tenham maior participação.
Em 2025, encontros entre autoridades chinesas e africanas continuaram ocorrendo em diferentes níveis. Uma reunião ministerial realizada em Changsha, na China, discutiu a implementação dos compromissos assumidos na cúpula de 2024. As conversas incluíram investimentos em infraestrutura, manufatura, economia digital, energia verde, ciência e tecnologia.
Tecnologia e formação
A influência também se desloca para áreas menos visíveis.
A China busca ampliar sua participação na economia digital africana, incluindo comércio eletrônico, telecomunicações, infraestrutura tecnológica e formação profissional. O plano de ação do FOCAC prevê iniciativas de cooperação em comércio eletrônico, capacitação e desenvolvimento tecnológico.
Ao mesmo tempo, Pequim mantém programas de formação de estudantes, funcionários públicos e profissionais africanos. O plano aprovado em 2024 prevê, entre outras iniciativas, centros de pesquisa China-África e intercâmbios voltados à formação de profissionais e dirigentes.
Esse tipo de relacionamento pode produzir efeitos de longo prazo. Uma ferrovia pode ser concluída em alguns anos, mas redes de profissionais, universidades, empresas e instituições que passam a trabalhar regularmente com parceiros chineses podem permanecer por décadas.
Uma relação marcada por interesses dos dois lados
A expansão chinesa na África também precisa ser observada a partir do ponto de vista africano.
Os governos do continente não são simplesmente receptores das iniciativas chinesas. Eles negociam contratos, definem prioridades, buscam financiamento e tentam utilizar a concorrência entre diferentes parceiros internacionais para alcançar objetivos nacionais.
A própria variedade dos projetos demonstra isso. Enquanto alguns países priorizam ferrovias e portos, outros buscam investimentos em mineração, energia, agricultura, tecnologia ou indústria automotiva.
Em abril de 2025, por exemplo, Quênia e China discutiram projetos de conectividade que poderiam combinar diferentes fontes de financiamento. Em outros países, a prioridade esteve relacionada à indústria, à mineração ou à energia.
Essa diversidade dificulta uma interpretação única sobre a presença chinesa.
Para alguns governos, os investimentos representam uma oportunidade de acelerar obras que enfrentavam limitações de financiamento. Para críticos de determinados acordos, surgem preocupações sobre endividamento, transparência contratual, conteúdo local, distribuição dos benefícios econômicos e condições de trabalho. Essas questões variam de acordo com o país e com cada projeto e não podem ser generalizadas para todo o continente.
Também é importante observar que a China não é o único ator externo presente na África. Instituições multilaterais, países europeus, Estados Unidos, Índia, Japão, países do Golfo e outros investidores disputam espaço econômico e diplomático.
O próximo capítulo
A estratégia chinesa na África parece cada vez menos concentrada em grandes obras isoladas e mais voltada para a criação de redes econômicas.
Infraestrutura conecta mercados. Comércio cria dependências econômicas. Mineração fornece matérias-primas. Indústrias transformam recursos em produtos. Tecnologia cria novos canais de integração. Programas de formação aproximam instituições e profissionais. A diplomacia reúne todos esses elementos em uma relação política mais ampla.
O desafio para os países africanos será transformar essa integração em ganhos duradouros de produtividade, empregos, industrialização e comércio regional. O Banco Mundial argumenta que o futuro da integração africana depende justamente de conectar mercados nacionais, reduzir barreiras comerciais e construir polos de produção capazes de atravessar fronteiras.
Nesse cenário, a China continuará sendo um dos principais parceiros econômicos de muitos países africanos, mas o resultado dessa relação dependerá também das escolhas feitas pelos próprios governos africanos. A dimensão da presença chinesa é evidente, mas seus efeitos concretos variam conforme o setor, o país, os termos dos contratos e a capacidade de cada Estado de transformar investimentos externos em desenvolvimento interno.
Mais do que uma simples disputa por influência, a relação entre Pequim e o continente africano é, portanto, uma combinação de interesses econômicos, necessidades de desenvolvimento e objetivos diplomáticos. É justamente essa combinação que explica por que a presença chinesa se tornou tão ampla e por que ela continuará sendo um dos elementos centrais da transformação econômica e geopolítica da África.

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