China e América Latina: comércio, investimentos e influência

 


A relação entre a China e a América Latina deixou de ser uma parceria concentrada principalmente na compra e venda de commodities. Nas últimas duas décadas, o vínculo econômico entre as duas regiões se tornou mais amplo e passou a envolver investimentos, infraestrutura, energia, tecnologia, financiamento, agricultura e diplomacia. Ao mesmo tempo, a presença chinesa passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante no debate sobre o futuro econômico e geopolítico latino-americano.

O crescimento dessa relação ocorre em um momento de transformação da economia internacional. A China consolidou-se como uma das principais potências comerciais do mundo, enquanto os países latino-americanos procuram ampliar mercados, atrair capital e reduzir sua vulnerabilidade diante das oscilações da economia global. Nesse cenário, Pequim encontrou na região fornecedores importantes de alimentos, minerais e energia, além de mercados para produtos industriais e tecnológicos.

Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, CEPAL, a relação entre China e América Latina e Caribe tornou-se, ao longo do século XXI, mais madura, complexa e diversificada. O comércio continua sendo o principal eixo, mas a relação passou a incluir investimentos, financiamento, infraestrutura e cooperação científica e tecnológica.



O comércio como ponto de partida

O comércio é a face mais visível dessa aproximação. A China aumentou significativamente sua participação nas relações comerciais latino-americanas desde o início dos anos 2000. Em 2024, segundo dados apresentados pelo governo chinês no Fórum China-CELAC, o comércio entre a China e os países da América Latina e do Caribe ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 500 bilhões. O valor representa uma expansão de mais de 40 vezes em relação ao início do século.

A estrutura desse comércio, porém, revela uma relação com características bastante específicas. A América Latina exporta para a China grandes volumes de produtos primários, enquanto importa uma variedade de bens manufaturados, máquinas, equipamentos e produtos tecnológicos.

Soja, petróleo, cobre, minério de ferro, carne e outros produtos agrícolas e minerais estão entre os itens que sustentam boa parte das exportações latino-americanas para o mercado chinês. O Brasil é um dos exemplos mais importantes dessa dinâmica. Em 2024, o país forneceu mais de 70% das importações chinesas de soja, segundo levantamento citado pelo Council on Foreign Relations.

Para os países latino-americanos, o mercado chinês representa uma fonte de demanda em escala gigantesca. Para a China, a região contribui para a segurança de seu abastecimento de alimentos, matérias-primas e recursos estratégicos.

Essa complementaridade produz oportunidades, mas também cria desafios. A concentração das exportações latino-americanas em produtos primários pode dificultar a construção de cadeias produtivas de maior valor agregado. É justamente um dos pontos destacados pela CEPAL ao analisar a relação econômica entre as duas regiões. A entidade identifica oportunidades para ampliar a cooperação e, ao mesmo tempo, fortalecer a capacidade produtiva e tecnológica latino-americana.

Investimentos e infraestrutura

A segunda grande dimensão da relação é o investimento. Empresas chinesas passaram a participar de projetos de infraestrutura, energia, mineração, logística, telecomunicações e transporte em diferentes países latino-americanos.

Portos, ferrovias, usinas de energia, redes de transmissão e projetos relacionados a novas tecnologias passaram a integrar o mapa dessa presença. O objetivo econômico desses projetos pode variar de acordo com o país e o setor, mas eles têm algo em comum: ampliam a conexão entre os mercados latino-americanos e a economia chinesa.

Um exemplo emblemático é o Porto de Chancay, no Peru. A infraestrutura foi apresentada pela China como um novo elo logístico entre a Ásia e a América Latina. Sua localização e capacidade de movimentação de cargas transformaram o projeto em símbolo da crescente integração comercial entre as duas regiões.

A presença chinesa também aparece no setor energético. Empresas do país participam de projetos relacionados a eletricidade, energias renováveis e outras áreas consideradas estratégicas para a transição energética. Em vários mercados latino-americanos, companhias chinesas competem com empresas europeias, norte-americanas e de outras origens pela participação em grandes projetos.

Esse movimento ganhou força dentro da chamada Iniciativa do Cinturão e Rota, conhecida internacionalmente como Belt and Road Initiative. Países latino-americanos passaram a aderir à iniciativa em diferentes momentos, embora o grau de participação e a natureza dos projetos variem de acordo com cada país.

De acordo com o governo chinês, mais de 200 projetos de infraestrutura foram implementados na América Latina e no Caribe sob estruturas de cooperação relacionadas à iniciativa, com a criação de mais de um milhão de empregos, segundo números apresentados por Pequim em 2025.

Esses números são apresentados pelo governo chinês e, portanto, devem ser entendidos dentro de sua própria caracterização da cooperação. Ainda assim, eles ajudam a dimensionar a importância que Pequim atribui à presença econômica na região.

Energia, minerais e a nova economia

A transformação energética mundial abriu outra frente de aproximação.

A América Latina possui reservas importantes de minerais necessários para diferentes tecnologias, além de grande potencial para produção de energia renovável. Lítio, cobre, níquel e outros minerais passaram a receber atenção crescente diante da expansão dos veículos elétricos, das baterias e das tecnologias de armazenamento de energia.

A China ocupa uma posição relevante em várias dessas cadeias produtivas. Ao mesmo tempo, países latino-americanos procuram transformar seus recursos naturais em oportunidades de industrialização.

Essa questão coloca uma pergunta central para a região: a crescente demanda chinesa por matérias-primas será utilizada apenas para ampliar as exportações de commodities ou poderá ajudar a criar novas cadeias industriais dentro da América Latina?

A resposta depende, em grande medida, das políticas adotadas pelos próprios países latino-americanos. Investimentos estrangeiros podem ampliar infraestrutura, gerar empregos e aumentar receitas, mas os efeitos sobre o desenvolvimento de longo prazo também dependem de transferência de tecnologia, formação de mão de obra, participação de fornecedores locais e capacidade de agregar valor aos recursos produzidos.

A CEPAL tem destacado justamente a necessidade de aproveitar a relação com a China para promover um desenvolvimento mais produtivo, inclusivo e sustentável, em vez de simplesmente ampliar o comércio de produtos primários.

Tecnologia e conectividade

A relação também está avançando em setores que, até pouco tempo atrás, tinham participação menor na agenda bilateral.

Telecomunicações, tecnologia digital, comércio eletrônico, veículos elétricos, inteligência tecnológica, ciência e inovação passaram a fazer parte da aproximação entre empresas e governos.

A cooperação espacial é outro exemplo. China e países latino-americanos desenvolveram projetos relacionados a satélites e tecnologia espacial, ampliando a agenda para além das tradicionais relações comerciais.

Essa diversificação é importante porque muda a natureza da relação. Quando o vínculo se limita à compra de commodities, a dependência econômica tende a ficar concentrada em preços internacionais e ciclos de demanda. Quando entram tecnologia, infraestrutura e serviços, a relação passa a envolver setores mais complexos da economia.

Ao mesmo tempo, a expansão tecnológica chinesa gera debates sobre padrões tecnológicos, segurança de dados, infraestrutura digital e dependência de fornecedores estrangeiros. Por isso, a decisão sobre quais empresas e tecnologias serão utilizadas tornou-se uma questão econômica e estratégica para muitos governos latino-americanos.

Uma relação também diplomática

O crescimento dos laços econômicos foi acompanhado por uma aproximação diplomática.

O Fórum China-CELAC tornou-se um dos principais mecanismos institucionais dessa relação. Criado oficialmente em 2015, o fórum reúne a China e os países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos para discutir comércio, desenvolvimento, infraestrutura, ciência, educação e outros temas.

Em maio de 2025, Pequim sediou a quarta reunião ministerial do Fórum China-CELAC, marcando dez anos de sua criação. Na ocasião, foram aprovados a Declaração de Pequim e um plano de ação para áreas prioritárias de cooperação entre 2025 e 2027.

O encontro também mostrou que a relação já não é exclusivamente econômica. Questões diplomáticas, governança internacional e a posição dos países em temas globais passaram a ocupar espaço crescente.

Para Pequim, a aproximação com os países latino-americanos está relacionada à construção de uma rede mais ampla de cooperação com países do chamado Sul Global. Para os governos latino-americanos, a relação com a China pode ampliar alternativas de comércio, financiamento e investimento.

Isso não significa, porém, que os países da região tenham posições idênticas. A América Latina é politicamente e economicamente diversa. Brasil, México, Argentina, Chile, Peru, Colômbia e os países da América Central e do Caribe possuem interesses próprios e diferentes graus de integração econômica com a China.

A dimensão geopolítica

A crescente presença chinesa também alterou o equilíbrio geopolítico do continente.

Durante décadas, os Estados Unidos ocuparam uma posição predominante nas relações econômicas e políticas do hemisfério. O crescimento da China introduziu uma nova variável nesse cenário.

A disputa entre Washington e Pequim por influência econômica e tecnológica aumenta a importância estratégica da América Latina. Para os governos da região, essa competição pode criar oportunidades, mas também pode aumentar a pressão para escolher posições em determinados temas.

A questão não se limita a comércio. Portos, redes de energia, telecomunicações, minerais estratégicos, tecnologia e cadeias de suprimentos possuem implicações econômicas e, em determinados casos, também estratégicas.

Em 2025, por exemplo, a China anunciou novas medidas para ampliar a cooperação com os países latino-americanos, incluindo uma linha de crédito de 66 bilhões de yuans, equivalente a cerca de US$ 9,2 bilhões à época, além de promessas de ampliar as importações e incentivar empresas chinesas a investir na região.

O movimento mostra que Pequim pretende manter a expansão de sua presença econômica. Também evidencia que a relação com a América Latina é tratada pela China como uma parceria de longo prazo, combinando comércio, investimento, diplomacia e cooperação institucional.

O desafio para a América Latina

A questão central para os países latino-americanos não é simplesmente escolher entre China e outros parceiros. O desafio consiste em transformar a diversificação das relações internacionais em desenvolvimento econômico sustentável.

A presença chinesa pode ampliar mercados, financiar projetos, estimular investimentos e acelerar determinadas transformações tecnológicas. Mas os resultados dependem das condições estabelecidas pelos próprios países.

Contratos transparentes, regras de concorrência, políticas industriais, proteção ambiental, formação profissional e participação de empresas locais são alguns dos fatores que podem determinar o impacto desses investimentos.

Outro desafio é evitar uma nova forma de dependência baseada exclusivamente na exportação de recursos naturais. A América Latina possui enorme capacidade agrícola, mineral e energética, mas a transformação desses recursos em produtos de maior valor agregado continua sendo um dos grandes obstáculos históricos da região.

A relação com a China pode fazer parte dessa transformação, mas não a substitui. Para que o comércio produza efeitos mais amplos, será necessário combinar exportações com industrialização, inovação, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico.

Uma relação em transformação

A aproximação entre China e América Latina já não pode ser descrita apenas como uma relação entre comprador e vendedor de commodities. O vínculo tornou-se uma rede que envolve comércio, investimentos, infraestrutura, energia, tecnologia, diplomacia e cooperação multilateral.

A China encontrou na América Latina fornecedores importantes de alimentos e recursos naturais, além de mercados para suas empresas. Os países latino-americanos encontraram em Pequim um parceiro comercial e financeiro de escala global, capaz de oferecer alternativas em áreas nas quais antes havia menos opções.

Essa relação, porém, é marcada por interesses diferentes e por desafios concretos. Para a China, a América Latina representa uma região estratégica para ampliar mercados, garantir cadeias de abastecimento e aprofundar sua presença internacional. Para os países latino-americanos, o relacionamento pode representar acesso a capital, tecnologia e demanda, mas também exige políticas capazes de evitar dependências excessivas e estimular maior agregação de valor.

O futuro dessa parceria dependerá, portanto, menos do volume bruto de comércio e mais da qualidade da relação econômica construída nos próximos anos.

Se a América Latina conseguir transformar parte de suas vantagens naturais em capacidade industrial, tecnológica e logística, a presença chinesa poderá se integrar a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento regional. Se a relação permanecer concentrada principalmente na exportação de matérias-primas e na importação de produtos de maior valor agregado, antigos problemas estruturais poderão continuar presentes sob uma nova configuração.

O que está em jogo é uma mudança que ultrapassa as estatísticas comerciais. A presença chinesa já faz parte da nova arquitetura econômica e diplomática da América Latina. O desafio dos próximos anos será definir como cada país utilizará essa aproximação para ampliar suas oportunidades, preservar sua autonomia de decisão e construir relações econômicas capazes de produzir benefícios de longo prazo.

A história dessa parceria ainda está sendo escrita. O que já mudou é o tamanho de sua importância.

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