Durante décadas, a riqueza mineral da África esteve associada principalmente à exploração de petróleo, ouro, diamantes, cobre e outros recursos tradicionais. Agora, uma nova disputa começa a redesenhar o mapa econômico do continente. Cobalto, lítio, grafite, manganês, cobre e terras raras passaram a ocupar uma posição estratégica nas relações entre governos, empresas de mineração e grandes potências.
A transformação está diretamente ligada à expansão dos veículos elétricos, das baterias, das redes elétricas, das energias renováveis, dos equipamentos eletrônicos e de diversas tecnologias consideradas essenciais para a transição energética. Esses setores dependem de matérias-primas cuja produção e, sobretudo, cujo processamento estão concentrados em poucos países. Nesse cenário, as reservas africanas ganharam importância não apenas econômica, mas também geopolítica.
O interesse internacional não surgiu por acaso. A Agência Internacional de Energia, IEA, aponta que a demanda por minerais essenciais à transição energética continua crescendo. Em 2024, a demanda por lítio aumentou quase 30%, enquanto níquel, cobalto, grafite e terras raras registraram crescimento de 6% a 8%. Para o lítio, a projeção no cenário de políticas declaradas da IEA indica uma expansão de aproximadamente cinco vezes entre os níveis atuais e 2040. A demanda por cobalto e terras raras também deverá crescer de forma significativa.
O continente que pode ganhar peso na nova economia mineral
A África reúne algumas das maiores reservas e áreas de exploração de minerais estratégicos do mundo. A República Democrática do Congo, por exemplo, ocupa posição central no mercado de cobalto. O país responde por mais de 70% da produção mundial do mineral, segundo análise publicada pelo governo britânico em 2025. O cobalto é utilizado em diferentes aplicações industriais e permanece importante para determinadas tecnologias de baterias.
A importância congolesa vai além do volume extraído. O país está no centro de uma cadeia produtiva global na qual a extração ocorre majoritariamente na África, enquanto etapas de processamento e transformação estão fortemente concentradas na Ásia. Essa diferença entre o local onde o minério é retirado e o local onde grande parte do valor econômico é acrescentado tornou-se uma das principais questões da nova corrida pelos minerais críticos.
O caso do lítio é diferente. A produção africana ainda é menor quando comparada à de grandes produtores internacionais, mas países como Zimbábue e República Democrática do Congo passaram a receber investimentos e atenção crescentes. A própria IEA identifica o Zimbábue como um dos países que contribuíram para o crescimento recente da oferta mundial de lítio, ao lado de produtores emergentes de outras regiões.
O continente também possui importantes recursos de grafite, particularmente em Moçambique e Madagascar, além de reservas e projetos relacionados a manganês, cobre, níquel e terras raras. Essa combinação cria uma possibilidade estratégica: a África pode deixar de ser apenas fornecedora de minério bruto e tentar participar de etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.
Essa mudança, porém, não é automática.
O verdadeiro campo de batalha está além da mina
Extrair um mineral é apenas uma etapa de uma cadeia muito mais ampla. Depois da mineração, o material precisa ser concentrado, processado, refinado e transformado em componentes utilizados pela indústria. Em alguns casos, é necessário produzir materiais químicos específicos antes que o mineral possa entrar na fabricação de baterias, motores, ímãs, semicondutores ou outros produtos tecnológicos.
É justamente nesse ponto que aparece uma das maiores fragilidades africanas.
A IEA estima que a África responda por parcelas expressivas da oferta global de alguns minerais não processados, incluindo cerca de 70% do cobalto, 75% do manganês e quase 20% do cobre. Entretanto, o continente captura menos de 1% do valor associado à fabricação de tecnologias e componentes relacionados à energia limpa.
A diferença revela o principal desafio econômico. Possuir reservas não significa necessariamente controlar uma cadeia industrial. O país que extrai o minério pode obter receitas importantes com royalties, impostos, empregos e exportações, mas uma parcela muito maior do valor pode ser criada posteriormente, durante o refino, a fabricação de materiais e a produção dos componentes finais.
É por isso que governos africanos passaram a discutir com maior intensidade políticas de beneficiamento mineral, industrialização e agregação de valor. A questão deixou de ser apenas quanto minério pode ser extraído e passou a envolver também quanto da cadeia produtiva pode permanecer dentro do continente.
A China no centro da disputa
Qualquer análise sobre os minerais africanos precisa considerar a posição da China. O país construiu, ao longo de décadas, uma presença significativa em mineração, processamento, refino e fabricação de componentes relacionados a minerais críticos.
A concentração não ocorre apenas na mineração. Segundo a IEA, a China permanece como principal fornecedora de materiais refinados para diversos minerais estratégicos. Nas projeções para 2035, o país deverá responder por mais de 60% do lítio e do cobalto refinados e por aproximadamente 80% do grafite adequado para baterias e das terras raras utilizadas em ímãs.
No caso das terras raras, a concentração é especialmente relevante. Esses elementos são utilizados em ímãs permanentes empregados em motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e outras tecnologias avançadas. A IEA registrou que os três maiores países mineradores respondiam por 86% da produção em 2024, enquanto os três maiores países de refino concentravam 97%.
A elevada concentração transforma qualquer interrupção de produção, mudança regulatória ou restrição comercial em uma questão com efeitos internacionais. Por essa razão, minerais críticos passaram a ser tratados cada vez mais como componentes de segurança econômica e estratégica.
Estados Unidos e Europa ampliam o interesse
A presença chinesa também ajuda a explicar o crescente interesse dos Estados Unidos e de países europeus pelas cadeias minerais africanas.
Washington busca diversificar fornecedores e reduzir a dependência de cadeias concentradas em poucos países. Uma das iniciativas mais relevantes envolve o Corredor do Lobito, uma rede de infraestrutura ferroviária e logística que conecta áreas produtoras da África Central ao litoral de Angola. O projeto ganhou importância nas discussões sobre transporte de cobre e cobalto e sobre a criação de rotas alternativas para minerais estratégicos.
O movimento não significa que a disputa africana esteja limitada a Estados Unidos e China. Empresas europeias, asiáticas e de outras regiões também participam da busca por projetos de mineração e processamento. Para os países consumidores, diversificar fornecedores tornou-se uma forma de reduzir riscos. Para os países produtores, a multiplicidade de interessados pode ampliar o espaço de negociação.
A competição, portanto, não acontece somente dentro das minas. Ela envolve ferrovias, portos, energia elétrica, financiamento, tecnologia, contratos de longo prazo, capacidade industrial e acesso aos mercados consumidores.
O dilema dos países africanos
Para os governos africanos, a nova corrida pelos minerais críticos apresenta uma oportunidade econômica, mas também desafios complexos.
A primeira questão é como transformar riqueza geológica em desenvolvimento industrial. Exportar minério bruto pode gerar receitas rapidamente, enquanto construir uma refinaria ou uma fábrica de materiais para baterias exige capital, energia confiável, infraestrutura, mão de obra especializada e anos de planejamento.
A segunda questão envolve a negociação com investidores estrangeiros. Projetos de mineração frequentemente exigem investimentos elevados e apresentam riscos relacionados à infraestrutura, estabilidade regulatória e volatilidade dos preços. Países produtores precisam equilibrar a necessidade de atrair capital com a tentativa de aumentar a participação nacional na cadeia de valor.
A terceira questão é ambiental e social. A expansão da mineração pode gerar empregos e receitas públicas, mas também pode produzir impactos sobre água, solo, comunidades locais e ecossistemas. No caso do cobalto, por exemplo, as condições de trabalho em determinadas áreas de mineração artesanal e de pequena escala na República Democrática do Congo provocaram preocupações e debates internacionais sobre direitos trabalhistas e rastreabilidade.
A transição energética, portanto, não elimina os dilemas tradicionais da mineração. Em muitos casos, ela apenas muda quais minerais estão no centro da disputa.
O risco de repetir um velho modelo
Existe uma preocupação recorrente entre especialistas em desenvolvimento econômico: a possibilidade de a África continuar desempenhando principalmente o papel de fornecedora de matérias-primas enquanto outras regiões concentram as etapas de maior valor agregado.
Esse risco é particularmente importante porque a competição atual ocorre em um momento de transformação industrial. Se os países africanos conseguirem desenvolver capacidade de processamento, poderão participar de uma parcela maior do crescimento associado às baterias, aos veículos elétricos, às redes elétricas e às tecnologias de baixo carbono.
A IEA identifica oportunidades de beneficiamento em diferentes partes do continente. Entre elas estão o desenvolvimento de materiais de grafite para baterias na África Oriental e a expansão da produção de materiais de manganês de maior pureza na África Austral e Central.
Mas construir essas cadeias exige mais do que reservas minerais. É necessário desenvolver infraestrutura energética, logística, financiamento e capacidades industriais. Também é preciso criar políticas que deem previsibilidade aos investidores sem impedir que os países produtores busquem maior participação no valor gerado.
O preço da concentração
Outro elemento importante da nova corrida mineral é a volatilidade dos mercados.
Depois da forte alta registrada durante a pandemia e nos anos seguintes, vários minerais enfrentaram queda de preços. A oferta aumentou rapidamente em determinados segmentos, enquanto a expansão da demanda não ocorreu de maneira uniforme. A IEA observou que os investimentos em minerais críticos cresceram apenas 5% em 2024, abaixo dos 14% registrados em 2023, enquanto a atividade de exploração praticamente estagnou.
Em 2025 e no início de 2026, porém, o cenário voltou a mudar. A IEA registrou recuperação dos preços de diversos minerais, incluindo lítio e cobalto. No caso do cobalto, a alta esteve relacionada, entre outros fatores, a restrições de exportação adotadas pela República Democrática do Congo.
Isso mostra como decisões tomadas por governos produtores podem ter consequências para cadeias industriais localizadas a milhares de quilômetros de distância.
Uma disputa por soberania econômica
A corrida pelos minerais africanos é, em última análise, uma disputa sobre quem controlará as cadeias produtivas da próxima fase da economia global.
Para Estados Unidos, Europa, China e outras potências industriais, garantir acesso a minerais críticos significa reduzir vulnerabilidades em setores considerados estratégicos. Para os países africanos, a questão pode representar uma oportunidade de aumentar receitas, diversificar economias e desenvolver novas capacidades industriais.
O resultado dependerá de como os governos negociarão contratos, investimentos, infraestrutura e transferência de tecnologia. Também dependerá da capacidade de transformar projetos isolados de mineração em cadeias industriais integradas.
A África possui parte dos recursos necessários para a transição energética mundial. O desafio será decidir quanto dessa riqueza permanecerá no continente sob a forma de empregos qualificados, empresas, infraestrutura, tecnologia, arrecadação e produção industrial.
A corrida já começou, mas a questão central não é apenas quem conseguirá extrair mais cobalto, lítio ou terras raras. A disputa mais importante está em torno de quem conseguirá transformar esses minerais em maior valor econômico e poder industrial.
Nesse sentido, as próximas décadas poderão definir se a África continuará principalmente como fornecedora de matérias-primas ou se conseguirá ocupar posições mais relevantes nas cadeias tecnológicas que estão sendo construídas ao redor dos minerais críticos.

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