Biorrenda e mobilização produtiva: quando a vida também se torna produtora de riqueza

 


A ideia de biorrenda parte de uma mudança profunda na maneira de compreender o trabalho, a produção e a própria geração de riqueza. Em uma economia na qual produzir já não significa apenas operar máquinas, cumprir jornadas em fábricas ou ocupar postos formais de emprego, as fronteiras entre trabalho, conhecimento, comunicação, criatividade e vida cotidiana tornam-se cada vez mais difíceis de estabelecer. É nesse terreno que Giuseppe Cocco desenvolve sua reflexão sobre a relação entre biorrenda e mobilização produtiva.

O conceito não deve ser confundido simplesmente com uma política de transferência de renda ou com uma forma convencional de assistência social. Na formulação apresentada por Cocco, a biorrenda está relacionada à percepção de que a produção contemporânea depende de capacidades espalhadas por toda a sociedade. Conhecimento, relações sociais, criatividade, comunicação, cultura, cuidados e diferentes formas de cooperação passam a participar da produção de valor, mesmo quando não aparecem como trabalho formalmente remunerado.

Essa mudança altera também o modo tradicional de pensar a relação entre emprego e renda. Durante boa parte da era industrial, o salário esteve no centro da integração econômica e social. O indivíduo era reconhecido como trabalhador principalmente por sua inserção em uma relação de emprego. A fábrica, o contrato de trabalho, a jornada e o salário organizavam não apenas a produção, mas também importantes dimensões da cidadania e da proteção social.

O cenário contemporâneo apresenta uma configuração diferente. Uma parcela crescente das atividades produtivas ocorre fora dos limites tradicionais da empresa. A produção de conhecimento pode acontecer em universidades, redes digitais, comunidades, espaços culturais ou ambientes domésticos. A criação de conteúdo pode ocorrer nas plataformas digitais. O cuidado pode ser realizado dentro das famílias. A circulação de informações pode ser produzida coletivamente. A inovação pode surgir de redes de usuários e comunidades. Em todos esses casos, existe uma contribuição social para a produção que nem sempre é reconhecida como trabalho.

É nesse deslocamento que a noção de mobilização produtiva ganha importância.

Para Cocco, o problema não consiste apenas em constatar que novas atividades econômicas surgiram. Trata-se de perceber que a própria vida social foi incorporada aos circuitos de produção. O indivíduo contemporâneo não produz somente quando está diante de uma máquina, em um escritório ou dentro de uma empresa. Sua capacidade de aprender, comunicar, criar, estabelecer relações e compartilhar conhecimentos também pode ser mobilizada economicamente.

Essa transformação cria uma contradição. Ao mesmo tempo em que a sociedade inteira participa de processos de produção de riqueza, grande parte dessa contribuição permanece sem reconhecimento direto na forma de renda. O trabalho formal pode se tornar mais precário, enquanto atividades realizadas fora do emprego passam a adquirir importância econômica crescente.

A consequência é uma ruptura com a ideia de que somente o emprego remunerado constitui a fonte legítima de renda.

Essa questão aparece de maneira particularmente clara quando Cocco relaciona a produção contemporânea àquilo que denomina bioprodução. Se a produção passa a envolver diretamente capacidades humanas, relações sociais e formas de vida, então a discussão sobre distribuição da riqueza precisa considerar aquilo que é produzido coletivamente antes mesmo de sua apropriação pelo mercado.

Em uma formulação encontrada em seus trabalhos, Cocco sustenta que, quando a produção se torna bioprodução, a renda também precisa assumir uma dimensão correspondente, daí a ideia de biorrenda.

O ponto central está justamente nessa inversão de perspectiva. Em vez de perguntar somente quanto uma pessoa produz dentro de seu emprego, a discussão passa a considerar quanto a sociedade produz por meio de uma multiplicidade de atividades, relações e conhecimentos que sustentam a economia.

Isso inclui dimensões que durante muito tempo permaneceram invisíveis nas estatísticas econômicas tradicionais. O cuidado com crianças e idosos, por exemplo, é fundamental para a reprodução da vida social e para a própria existência do mercado de trabalho. A educação amplia capacidades produtivas. A cultura produz referências, linguagens e identidades. A pesquisa produz conhecimento. As redes sociais e digitais organizam fluxos de informação. As comunidades desenvolvem soluções e práticas de cooperação.

Nem tudo isso pode ser automaticamente convertido em valor monetário. Mas a tese da biorrenda chama atenção justamente para o fato de que a economia contemporânea depende de uma base social muito mais ampla do que aquela reconhecida pelo salário.

Da fábrica à sociedade produtiva

A economia industrial construiu uma imagem relativamente clara do processo produtivo. Havia uma fábrica, trabalhadores, máquinas, matérias-primas e produtos. A jornada delimitava o período de trabalho. O salário estabelecia a remuneração. A separação entre tempo de trabalho e tempo livre parecia relativamente objetiva.

A economia contemporânea tornou essas fronteiras mais porosas.

Um profissional pode responder a mensagens fora do expediente, estudar permanentemente para manter suas qualificações, produzir conhecimento em comunidades virtuais ou utilizar ferramentas digitais que transferem parte da atividade produtiva para o próprio trabalhador. Um consumidor pode produzir dados utilizados por empresas. Um usuário pode contribuir para melhorar um produto por meio de avaliações e comentários. Uma comunidade pode criar conhecimento compartilhado que posteriormente será apropriado por organizações econômicas.

Nesse ambiente, a produtividade deixa de estar concentrada exclusivamente nos espaços tradicionais da produção.

A chamada economia do conhecimento intensifica esse processo. O conhecimento acumulado por uma pessoa não desaparece quando termina sua jornada. A capacidade de estabelecer conexões, resolver problemas, criar linguagens e interpretar informações pode ser mobilizada em diferentes situações. O mesmo ocorre com competências adquiridas em ambientes não profissionais.

O resultado é uma sociedade na qual o tempo produtivo pode ultrapassar os limites do emprego.

Essa transformação também ajuda a compreender por que Cocco relaciona a biorrenda à necessidade de reconhecer as dimensões produtivas da própria vida. A questão não é simplesmente aumentar salários dentro do modelo existente, mas repensar a relação entre produção e distribuição quando a riqueza depende de uma cooperação social disseminada.

A precarização como parte da contradição

A expansão da mobilização produtiva não significa necessariamente melhoria das condições de vida. Pelo contrário, uma das contradições apontadas na literatura associada a Cocco é que a incorporação de mais dimensões da vida aos processos produtivos pode ocorrer simultaneamente à precarização.

A pessoa pode estar permanentemente mobilizada para produzir, mas não necessariamente possuir um emprego estável.

Essa diferença é fundamental.

Um mercado de trabalho pode exigir flexibilidade, disponibilidade e atualização constante, enquanto reduz vínculos permanentes e transfere riscos econômicos para os indivíduos. O trabalhador passa a administrar sua própria formação, sua capacidade de comunicação, seus instrumentos de trabalho e, em determinados casos, até mesmo seus períodos de ausência de renda.

Nesse contexto, a mobilização produtiva possui uma dupla dimensão. De um lado, revela uma capacidade social extraordinária de criação, cooperação e inovação. De outro, pode significar que uma quantidade cada vez maior de responsabilidades econômicas seja transferida para os indivíduos.

A discussão sobre biorrenda surge, portanto, como uma tentativa de enfrentar essa contradição. Se a produção depende da sociedade como um todo, a distribuição da riqueza não poderia depender exclusivamente da existência de empregos formais.

É uma mudança importante no próprio conceito de cidadania econômica.

Renda e reconhecimento social

A proposta de uma renda desvinculada da relação salarial pode ser compreendida, nesse quadro, não apenas como mecanismo de combate à pobreza, mas como forma de reconhecimento de uma produção social mais ampla.

Essa interpretação aparece em debates sobre renda básica e comum, nos quais a renda é relacionada à produtividade coletiva e à participação social na criação de riqueza.

A questão é particularmente relevante em sociedades onde uma parcela significativa da população combina diferentes formas de atividade. Uma pessoa pode trabalhar formalmente, cuidar de familiares, estudar, participar de uma organização comunitária, produzir cultura e desenvolver atividades digitais ao longo de uma mesma semana.

Qual dessas atividades deve ser considerada produtiva?

A economia tradicional tende a responder privilegiando aquilo que possui preço de mercado ou remuneração direta. A perspectiva da biorrenda questiona essa fronteira.

O debate não significa afirmar que toda atividade humana seja automaticamente produtiva no sentido econômico. Significa reconhecer que a produção de riqueza social depende de condições coletivas que frequentemente permanecem fora da contabilidade convencional.

A educação pública, por exemplo, não é apenas um serviço consumido individualmente. Ela amplia capacidades que posteriormente podem participar de diferentes processos econômicos e sociais. A infraestrutura urbana não é apenas um conjunto de obras físicas. Ela possibilita circulação, encontro, comunicação e produção. A cultura não é apenas entretenimento. Ela cria linguagens, símbolos e formas de pertencimento.

A riqueza, nesse sentido, possui uma dimensão social.

O comum como dimensão da produção

A discussão sobre biorrenda também está ligada ao conceito de comum, importante na obra de Cocco e em debates contemporâneos sobre economia política.

O comum não deve ser entendido simplesmente como aquilo que pertence ao Estado ou como aquilo que não possui proprietário. Trata-se de uma perspectiva segundo a qual determinados recursos, conhecimentos, relações e capacidades são produzidos e sustentados coletivamente.

A própria cooperação social pode ser considerada uma infraestrutura produtiva.

Quando pessoas compartilham conhecimento, desenvolvem tecnologias, produzem cultura ou constroem redes de solidariedade, elas ampliam as possibilidades de ação de outras pessoas. A riqueza produzida dessa maneira não pode ser explicada exclusivamente pela atividade isolada de cada indivíduo.

É justamente aí que aparece uma questão decisiva: quem deve se apropriar dos resultados dessa produtividade coletiva?

A resposta proposta pelo conceito de biorrenda desloca a discussão para o reconhecimento de direitos associados à própria participação na vida social. Em vez de imaginar a renda exclusivamente como recompensa por um emprego, ela passa a ser pensada também como mecanismo de reconhecimento de uma produtividade social difusa.

Uma mudança na ideia de trabalho

A força do conceito está, portanto, em colocar em questão uma definição estreita de trabalho.

Durante décadas, trabalho foi identificado principalmente com emprego. A crise desse modelo não elimina o trabalho. Ao contrário, revela uma multiplicidade de atividades que sempre existiram, mas que foram parcialmente invisibilizadas.

O trabalho doméstico é um exemplo evidente. O cuidado também. A produção cultural independente, a atividade comunitária, o conhecimento compartilhado e diferentes formas de colaboração mostram que a sociedade produz muito além dos limites das empresas.

A digitalização aprofundou essa transformação.

Hoje, plataformas podem transformar interação social em dados, atenção em receita publicitária e conhecimento coletivo em vantagem econômica. A participação dos usuários pode ser incorporada aos modelos de negócio. A própria comunicação cotidiana pode adquirir valor econômico.

Nesse cenário, a pergunta sobre quem produz riqueza deixa de ser simples.

É justamente essa complexidade que torna a biorrenda uma questão política, econômica e social. Ela não se limita à distribuição de dinheiro. Envolve uma disputa sobre o que é reconhecido como produção, sobre quem participa da criação de riqueza e sobre quais direitos devem acompanhar essa participação.

A atualidade da questão

A reflexão de Cocco permanece relacionada a debates contemporâneos sobre renda, trabalho e transformação tecnológica. Estudos recentes que retomam sua produção continuam associando a biorrenda a uma mudança no terreno das lutas sociais, especialmente diante de formas de produção que ultrapassam a relação salarial tradicional.

O avanço da automação, da inteligência artificial, das plataformas digitais e do trabalho remoto torna essa discussão ainda mais complexa. Tecnologias podem aumentar a produtividade, mas também modificar profundamente a distribuição da renda e a forma como o trabalho é organizado.

Se uma máquina ou sistema automatizado passa a executar uma tarefa antes realizada por dezenas de trabalhadores, a pergunta não é apenas tecnológica. É também distributiva.

Quem se beneficia do aumento da produtividade?

Se a inovação depende de décadas de conhecimento acumulado por universidades, pesquisadores, trabalhadores e instituições públicas e privadas, até que ponto o resultado pertence exclusivamente às empresas que conseguem comercializá-la?

E se os dados utilizados para desenvolver sistemas tecnológicos são produzidos pelas atividades cotidianas de milhões de pessoas, como deve ser compreendida essa contribuição?

Essas perguntas não possuem respostas simples. Mas ajudam a explicar por que a ideia de biorrenda ultrapassa a discussão tradicional sobre benefícios sociais.

No centro da questão está uma transformação na própria relação entre vida e produção.

A sociedade contemporânea produz riqueza de maneira cada vez mais distribuída. A produção não desapareceu da fábrica, da empresa ou do escritório, mas passou a coexistir com uma infinidade de atividades realizadas nos espaços sociais, culturais, familiares e digitais.

A mobilização produtiva é justamente esse movimento pelo qual capacidades sociais são continuamente convocadas para participar da criação de valor.

A biorrenda, por sua vez, aparece como uma hipótese de resposta à contradição criada por esse processo: se a vida social é uma das condições da produção de riqueza, como reconhecer e distribuir parte dessa riqueza para além dos limites do emprego?

A pergunta continua aberta.

Mais do que uma fórmula pronta, a biorrenda pode ser compreendida como uma chave de leitura para observar a economia contemporânea. Ela permite enxergar aquilo que permanece escondido quando produção é reduzida a emprego, salário e empresa.

Nesse sentido, a contribuição de Giuseppe Cocco está em deslocar o olhar. O problema da renda deixa de ser apenas uma questão de transferência posterior de riqueza e passa a envolver a própria maneira como definimos produção.

Quando conhecimento, comunicação, criatividade, cuidado, cultura e cooperação entram no centro dos processos econômicos, a fronteira entre produzir e viver torna-se menos evidente.

E é justamente nessa fronteira que a ideia de biorrenda encontra sua principal questão: como construir formas de reconhecimento e distribuição compatíveis com uma sociedade na qual a produção de riqueza depende, cada vez mais, da potência coletiva da vida?

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