A ascensão da China e a transformação da ordem mundial

 


Durante boa parte do período posterior à Guerra Fria, os Estados Unidos ocuparam uma posição singular no sistema internacional. Washington combinava poder militar, influência diplomática, capacidade tecnológica, peso financeiro e uma extensa rede de alianças. Esse cenário alimentou a percepção de que o mundo havia entrado em uma espécie de momento unipolar, no qual a ordem internacional era fortemente influenciada pelas instituições, regras e interesses das principais potências ocidentais.

Nas últimas décadas, porém, esse quadro passou por uma transformação profunda. Entre os fatores mais importantes está a ascensão da China, que deixou de ser principalmente uma potência regional para se tornar um dos principais centros econômicos, tecnológicos, diplomáticos e militares do planeta. O crescimento chinês não significa, por si só, o desaparecimento da influência americana ou a substituição automática de uma ordem internacional por outra. O que se observa é um processo mais complexo, marcado por competição entre grandes potências, diversificação das alianças e crescente disputa sobre quem terá maior capacidade de definir as regras do sistema internacional.

A transformação chinesa começou a ganhar velocidade especialmente a partir das reformas econômicas iniciadas no final da década de 1970. A abertura gradual ao comércio internacional, a atração de investimentos estrangeiros, a expansão da indústria e a integração às cadeias globais de produção permitiram ao país alcançar taxas de crescimento extraordinárias durante décadas.

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, aprofundou esse processo. O país tornou-se uma peça central da produção industrial mundial, ampliando sua presença em setores que iam desde produtos de baixo custo até equipamentos eletrônicos, máquinas, veículos elétricos, baterias, painéis solares e componentes tecnológicos.

Esse processo teve uma consequência geopolítica importante. A China passou a acumular não apenas riqueza, mas também instrumentos de influência. Quanto maior sua participação no comércio, nas cadeias produtivas e nos mercados internacionais, maior passou a ser sua capacidade de afetar decisões econômicas de outros países.

A ascensão econômica também permitiu ao governo chinês direcionar recursos para pesquisa, infraestrutura e modernização militar. O país passou a investir pesadamente em tecnologias consideradas estratégicas, como inteligência artificial, telecomunicações, semicondutores, energia renovável, veículos elétricos, computação avançada e tecnologias espaciais.

A dimensão militar acompanha essa transformação. Estudos recentes apontam que o Exército de Libertação Popular passou por uma modernização significativa, ampliando suas capacidades navais, aéreas, espaciais, cibernéticas e de mísseis. Em 2025, o orçamento oficial de defesa chinês chegou a aproximadamente US$ 247 bilhões, embora estimativas externas indiquem que o gasto militar efetivo possa ser superior ao valor divulgado oficialmente.

O crescimento das capacidades militares chinesas é particularmente relevante no Indo-Pacífico. O Estreito de Taiwan, o Mar do Sul da China, o Mar da China Oriental e as áreas próximas ao Japão passaram a ocupar posição central na competição estratégica entre Pequim e Washington. Em 2025, análises sobre as atividades militares chinesas registraram aumento do ritmo operacional em diferentes áreas do Indo-Pacífico, incluindo Taiwan, o Mar do Sul da China, as proximidades do Japão e regiões além da chamada Primeira Cadeia de Ilhas.

A questão de Taiwan ocupa um lugar especial nesse cenário. Pequim considera a ilha parte do território chinês e afirma que a reunificação é um objetivo nacional. Taiwan, por sua vez, possui governo democrático próprio e mantém uma relação não oficial, mas estreita, com os Estados Unidos e outras democracias. A disputa tornou-se um dos principais pontos de tensão da política internacional contemporânea.

A ascensão chinesa, entretanto, não pode ser explicada apenas pelo poder militar. Uma das características mais importantes da estratégia de Pequim é a utilização de instrumentos econômicos e institucionais para ampliar sua influência.

A Iniciativa do Cinturão e Rota é um dos exemplos mais conhecidos. Lançada durante a presidência de Xi Jinping, a iniciativa busca ampliar conexões de infraestrutura, comércio e investimentos entre a China e diferentes regiões do mundo. Ferrovias, portos, estradas, usinas de energia, redes de telecomunicações e outros projetos passaram a integrar uma extensa rede de relações econômicas.

Ao mesmo tempo, Pequim participou da criação e do fortalecimento de instituições internacionais nas quais possui influência significativa. O Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura é um exemplo desse esforço de atuação institucional. A estratégia chinesa não consiste simplesmente em abandonar as organizações internacionais existentes. Em muitos casos, envolve participar delas, tentar aumentar sua influência dentro delas e, paralelamente, criar novas instituições ou mecanismos de cooperação.

Esse movimento ajuda a explicar uma das principais características da transformação da ordem mundial: a disputa não acontece apenas entre Estados, mas também em torno das instituições que estabelecem regras, financiam projetos e organizam a cooperação internacional.

Analistas do sistema internacional observam que a China busca maior participação na definição das normas globais. O debate envolve temas como comércio, financiamento, tecnologia, segurança, inteligência artificial, energia, desenvolvimento e governança internacional. Há diferentes interpretações sobre o objetivo final de Pequim. Alguns especialistas descrevem a estratégia como uma tentativa de reformar uma ordem dominada historicamente pelas potências ocidentais. Outros identificam uma ambição mais ampla de construir uma configuração internacional na qual a influência chinesa seja significativamente maior.

Nesse contexto, ganha importância a ideia de um mundo multipolar. O conceito descreve um sistema no qual o poder internacional está distribuído entre diversos centros, em vez de concentrado principalmente em uma única potência.

A expansão dos BRICS é frequentemente associada a esse processo. O grupo, que inicialmente reunia Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, passou por uma expansão que incluiu novos integrantes. A organização defende, entre outros objetivos, reformas nas instituições financeiras internacionais e maior representação dos países em desenvolvimento na governança global. Ao mesmo tempo, os membros possuem interesses econômicos, políticos e estratégicos bastante diferentes, o que limita a possibilidade de tratá-los como um bloco completamente homogêneo.

A China ocupa uma posição central nesse movimento, mas não controla todos os seus integrantes. Índia, Brasil, Indonésia, países do Oriente Médio e outras nações procuram preservar margem de manobra própria. Em muitos casos, esses países mantêm relações simultâneas com China, Estados Unidos, Europa, Rússia e outras potências.

Esse comportamento revela uma característica importante da nova ordem mundial. A competição entre grandes potências não necessariamente obriga todos os demais países a escolher um único lado.

No Sudeste Asiático, por exemplo, vários governos procuram ampliar os vínculos econômicos com a China ao mesmo tempo em que mantêm relações de segurança com os Estados Unidos. Analistas também identificam uma preocupação crescente desses países em preservar sua autonomia estratégica em um ambiente de competição entre Washington e Pequim.

O Oriente Médio oferece outro exemplo. A China ampliou sua presença econômica e diplomática na região, fortalecendo relações com países produtores de energia e participando de iniciativas diplomáticas. A expansão das relações com Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Irã, Qatar e outros países mostra que Pequim procura construir influência para além de seu entorno geográfico imediato.

A tecnologia representa outra frente decisiva dessa transformação.

Durante décadas, a liderança tecnológica esteve fortemente concentrada nos Estados Unidos, no Japão e em países europeus. A China, porém, avançou rapidamente em diversas áreas. Empresas chinesas passaram a competir globalmente em telecomunicações, veículos elétricos, baterias, energia solar, comércio eletrônico e outros setores.

Esse avanço também produziu novas disputas. Semicondutores, inteligência artificial, equipamentos de telecomunicações e tecnologias avançadas passaram a ser tratados não apenas como produtos comerciais, mas como ativos estratégicos. A dependência de determinadas cadeias produtivas tornou-se uma questão de segurança nacional.

Como resultado, Estados Unidos, China, Europa, Japão e outras economias passaram a adotar políticas destinadas a reduzir vulnerabilidades tecnológicas e industriais. A globalização, que durante décadas foi apresentada principalmente como um processo de integração econômica, passou a ser observada também sob a perspectiva da segurança.

Essa mudança pode alterar profundamente a economia mundial. Empresas que antes buscavam principalmente eficiência e menores custos agora precisam considerar riscos geopolíticos, sanções, restrições de exportação, segurança das cadeias de fornecimento e acesso a tecnologias críticas.

A transformação também atinge o sistema financeiro. O dólar continua sendo a principal moeda de referência internacional, mas a China tem defendido maior diversificação dos mecanismos de pagamento e maior utilização de sua própria moeda em determinadas transações. Os BRICS também discutem formas de reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelo dólar, embora existam grandes obstáculos econômicos e políticos para a criação de uma alternativa plenamente comparável ao sistema atual.

Isso demonstra que a transformação da ordem mundial não deve ser entendida como uma simples substituição dos Estados Unidos pela China. O cenário é mais fragmentado.

Os Estados Unidos continuam dispondo de uma extensa rede de alianças, enorme capacidade militar, centros tecnológicos de referência e forte influência financeira. A China, por sua vez, possui uma enorme base industrial, crescente capacidade tecnológica, grande mercado interno, influência comercial e capacidades militares em expansão. Europa, Índia, Japão, Rússia, países do Golfo e outras potências regionais também desempenham papéis relevantes.

O resultado é um sistema internacional mais competitivo e menos previsível.

A ascensão chinesa também apresenta limites e desafios. O país enfrenta problemas econômicos internos, pressões demográficas, necessidade de elevar a produtividade e dificuldades em determinadas áreas tecnológicas. A desaceleração do crescimento em relação às taxas extraordinárias observadas nas décadas anteriores também modifica as condições nas quais Pequim exerce sua política externa.

Além disso, a expansão da influência chinesa não é recebida de maneira uniforme. Alguns países enxergam investimentos e comércio com a China como oportunidades de desenvolvimento. Outros demonstram preocupação com dependência econômica, segurança, disputas territoriais ou aumento da influência de Pequim.

A própria relação entre China e Estados Unidos permanece como uma das principais variáveis do sistema internacional. A competição envolve comércio, tecnologia, segurança, cadeias industriais, influência diplomática e presença militar. Analistas de diferentes correntes reconhecem que as decisões tomadas por Washington e Pequim terão efeitos que ultrapassam suas relações bilaterais e podem afetar a estabilidade do Indo-Pacífico, a economia global e a governança internacional.

O mundo que emerge dessa transformação, portanto, não é necessariamente um mundo pós-americano. É um mundo no qual a capacidade dos Estados Unidos de definir unilateralmente os rumos internacionais encontra mais limitações, enquanto a China dispõe de instrumentos cada vez mais amplos para influenciar as regras, instituições e relações econômicas globais.

A principal mudança talvez esteja justamente aí. Durante o período de maior predominância americana, muitas decisões internacionais eram tomadas dentro de uma arquitetura institucional na qual Washington e seus aliados possuíam enorme peso. Com a ascensão chinesa e o fortalecimento de outras potências, essa arquitetura tornou-se mais disputada.

A questão central para as próximas décadas será saber até que ponto essa competição produzirá novas formas de cooperação ou aprofundará a fragmentação internacional.

A China já é uma potência indispensável para compreender a economia mundial, a política internacional, a tecnologia e a segurança do século XXI. Sua ascensão não significa automaticamente o fim da ordem construída após a Segunda Guerra Mundial, mas tornou muito mais difícil imaginar que essa ordem permanecerá inalterada.

O resultado final ainda está em aberto. O sistema internacional pode caminhar para uma competição prolongada entre grandes potências, para uma ordem multipolar com diferentes centros de influência ou para uma combinação dos dois modelos. O que parece mais evidente é que a distribuição global de poder mudou e continua mudando.

A ascensão da China, nesse sentido, não representa apenas a história de uma potência que ficou mais rica e poderosa. Trata-se de uma transformação que afeta as regras do comércio, a circulação de tecnologia, a arquitetura financeira, as alianças militares, as instituições internacionais e as escolhas estratégicas de países em praticamente todas as regiões do planeta.

A ordem mundial do século XXI será construída dentro desse ambiente de competição e interdependência. E, no centro dessa transformação, estará a relação entre uma China cada vez mais influente, os Estados Unidos ainda profundamente presentes no sistema internacional e um conjunto crescente de países que procuram ampliar sua própria autonomia.

Mais do que uma simples mudança de liderança, o fenômeno representa uma redistribuição do poder mundial.

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