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LITERATURA

Palavra 45

Machado, seus relicários e raisonnés
Os contos de Machado de Assis carecem não apenas de edições adequadas, mas também e principalmente de estudos condizentes com sua relevância literária, que inclusive forneçam uma visão completa do conjunto
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Viagem a Havana
Impossível deixar de admirar, linha após linha, página após página, o trabalho do artesão tapeceiro, que dedicado a cada detalhe não perde de vista o todo da composição e deita cada ponto no exato e único lugar em que precisa estar
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Grito provinciano – eco universal
O mundo das Adriennes não mudou tanto assim. É gente que você sabe que nunca escapará a uma sina de pequenez, sovinice, tristeza, exílio, desespero. Porque essa sina é tudo que tem, é sua explicação, seu nexo ontológico
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Do inútil (ao fútil)
O fútil, porque está tão aquém de nossa melhor dedicação, deixa entrever a existência de algo que é seu oposto absoluto
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Rodrigo Gurgel

(08/11/2008)

Forçados às férias, retornamos para insistir com a literatura, aguardando as mudanças que darão a esta página uma navegabilidade mais espontânea, mais prazerosa.

Mauro Rosso abre esta edição com o ensaio, de certa forma biográfico, em que relata o tortuoso percurso não só de seu amor por Machado de Assis, mas principalmente da pesquisa que o levou a reencontrar o desaparecido conto “Um para o outro”, recentemente publicado no livro que é, com certeza, um dos melhores lançamentos da safra dedicada ao Bruxo do Cosme Velho: Contos de Machado de Assis, relicários e raisonnés. Mas o relato de Rosso é também uma introdução à obra machadiana, um convite a penetrar nesse universo que opera “a transmutação do narrador e da voz narrativa” – o testemunho de um pesquisador que busca “sempre fazer da diferenciação o elemento norteador” de seus projetos.

Romilda Raeder analisa o romance Chuva sobre Havana, de Julio Travieso Serrano. Seguindo os passos de um narrador malcomportado, ela descobre uma voz que “escreve com tremenda eficiência sobre o acontecido” e “sobre o não dito”. Na opinião de Romilda Raeder, Serrano “não só subverte a linearidade do tempo narrativo, como joga com esse tempo em mais de uma voz”.

O escritor Chico Lopes fala de Adrienne Mesurat, de Julien Green. Na verdade, mais que comentar sobre o romance, Chico Lopes recupera a obra para o nosso tempo, elaborando, pari passu, uma análise do mercado editorial e da literatura contemporânea, concluindo, tristemente: “Não se admira mais, nem se estimula pelo aval do sucesso material, o escritor que tem coragem de se arriscar em zonas humanas onde a solidão e a incomunicabilidade podem ser irremediáveis”.

Em sua crônica, Diego Viana estabelece um paralelo entre o fútil e o inútil. Que diferenças, muitas vezes nem um pouco sutis, separam essas duas esferas da existência humana? Para Viana, “face a face com o útil, o fútil se despedaça e leva consigo o encanto do inútil”.

Boa leitura – e até a próxima semana.

Rodrigo Gurgel, editor de Palavra



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